descentralização

*Por Rodrigo Schuch – Vivemos uma nova revolução tecnológica e cada vez mais é possível ver as consequências deste novo tempo. A inteligência artificial, antes tema de ficção científica, hoje estrutura economias, transforma serviços públicos e redefine a forma como trabalhamos e nos comunicamos. Mas, por trás dessa inovação acelerada, há uma questão crucial: o Brasil tem infraestrutura suficiente para sustentar sua própria transformação digital?

O país abriga o maior e mais dinâmico ecossistema de prestadoras de banda larga fixa do mundo, com mais de milhares de Prestadoras de Pequeno Porte (PPPs).


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Essas empresas são responsáveis por mais de 55% dos acessos fixos em serviço e alcançam todos os municípios brasileiros, incluindo áreas rurais, periféricas e de baixa atratividade econômica. Em muitos desses locais, as PPPs são a única infraestrutura de telecomunicações de alta capacidade instalada, garantindo conectividade onde as grandes operadoras historicamente não chegam.

Esse protagonismo se apoia em um modelo de negócios de proximidade territorial, agilidade operacional e inovação constante. As PPPs operam utilizando recursos locais, parcerias regionais redes modernas para expandir cobertura. Essa arquitetura descentralizada as transforma em vetores de inovação distribuída, respondendo rapidamente às demandas de escolas, hospitais, pequenas indústrias e governos locais.

No entanto, quando analisamos a infraestrutura existente de data centers, o cenário é outro. Atualmente, de acordo com dados do portal especializado DataCenterMap, o Brasil conta com 195 data centers de grande porte. Globalmente, há cerca de 11 mil data centers distribuídos em todo o mundo, sendo que só os EUA somam mais de 4,1 mil. Além disso, ainda segundo o mesmo portal, cerca de 58% dos data centers brasileiros estão localizados no eixo Rio de Janeiro–São Paulo, reproduzindo o histórico padrão de centralização das TICs e limitando o potencial de crescimento digital em outras regiões.

Enquanto somos o 3º maior mercado de banda larga fixa do mundo, ocupamos apenas o 12º lugar em infraestrutura de data centers. Ainda mais preocupante: 60% da infraestrutura digital utilizada no país está hospedada em servidores estrangeiros, especialmente nos Estados Unidos. Essa dependência reduz nossa soberania tecnológica e aumenta os riscos de segurança e vulnerabilidade de dados.

A boa notícia é que o Brasil não parte do zero. Dispomos de uma infraestrutura que poucos países emergentes possuem: uma vasta malha de fibra óptica e entre 70 mil e 100 mil Pontos de Presença (POPs) espalhados por todas as regiões, operados em sua maioria por prestadoras regionais. Uma pequena parcela desses POPs, hoje usados para interconexão de redes, possuem características estruturais e energéticas que os tornam aptos a evoluir para micro ou mini data centers regionais, conhecidos como Data Centers Edge.

Investir na descentralização dos data centers é uma decisão política e estratégica. Trata-se de gerar empregos de alta qualificação, estimular o desenvolvimento regional e fortalecer a segurança e a soberania digital do país. Além dos ganhos técnicos e econômicos, uma infraestrutura distribuída traz benefícios ambientais, pois data centers regionais podem aproveitar fontes locais de energia renovável, como solar e eólica, aumentando a sustentabilidade do sistema.

A Associação NEO defende a criação de uma Política Nacional de Data Centers, com foco na descentralização territorial e no aproveitamento da infraestrutura já existente.

Essa política deve incluir: incentivos fiscais e acesso a crédito para modernização de POPs e criação de edge nodes regionais; diretrizes técnicas padronizadas voltadas às PPPs, que hoje operam em municípios de médio e pequeno porte; parcerias com universidades e institutos federais, transformando suas instalações em hubs regionais de inovação e processamento e integração com políticas de transformação digital, inclusão social e sustentabilidade.

O Brasil tem energia, conectividade e capital humano. Tem um ecossistema regional de provedores robusto e inovador. Tem o que é mais importante: a base pronta para uma infraestrutura digital distribuída, soberana e sustentável.

Falta apenas o que sempre faz diferença nas grandes transformações nacionais: vontade política, visão estratégica e coragem de descentralizar.

*Rodrigo Schuch é Presidente-executivo da Associação NEO.

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