Dias depois do golpe de estado no Brasil, em 1964, o embaixador dos EUA no país, Lincoln Gordon, viajou até Washington para informar seu governo sobre os desdobramentos da ruptura democrática no Brasil. Naquela viagem, um de seus encontros foi com Bobby Kennedy, que lhe confessou que estava aliviado com os acontecimentos no país sul-americano.

Um relato daquele encontro indica que Kennedy teria lamentado o fato de o presidente João Goulart não ter dado ouvidos às demandas feitas pelos EUA nos meses que anteciparam à sua queda. “Goulart teve o que merecia. Uma pena que ele não tenha seguido o conselho que lhe demos quando eu estava lá”, disse.

O envolvimento dos EUA no golpe nem sempre foi um consenso dentro da Casa Branca, com diferentes alas disputando a melhor forma pela qual os americanos poderiam exercer seu controle sobre o maior país da América Latina.

O destino do Brasil estava na agenda do Salão Oval pelo menos desde 1962. De acordo com uma pesquisa realizada pelo acadêmico Anthony Pereira, em julho daquele ano, o presidente Kennedy conversou com seus assessores e considerou opções militares no Brasil. Seis meses depois, o democrata enviou seu irmão Bobby para conversar com Goulart e tentou persuadi-lo a mudar a composição e a direção de seu governo.

A esperança da Casa Branca era de que o Brasil poderia ser convencido a ceder em pontos estratégicos para os interesses americanos.

No Palácio da Alvorada em 18 de dezembro daquele ano, Bobby e Goulart se reuniram por três horas. Do lado do irmão do presidente dos EUA, as queixas eram direcionadas à presença de comunistas no governo brasileiro e atores com posições claramente anti-americanas. A lista de roupa suja ainda incluía a falta de apoio do Brasil para projetos da Casa Branca para o Hemisfério.

Em 2026, o Brasil vive a maior ingerência contra sua soberania desde 1964, segundo uma avaliação interna realizada pelo próprio Palácio do Planalto. Nos últimos dias, crises envolvendo Javier Milei, tarifas, estabelecimento de emergência à segurança nacional, equipes enviadas por Donald Trump e operações com influenciadores confirmaram ao Palácio do Planalto que existe uma ofensiva orquestrada e que vai exigir das instituições nacionais uma atitude decisiva.

O mapeamento do governo é de que a operação para influenciar o destino da eleição brasileira está ocorrendo em três dimensões.

A primeira delas vem da própria Casa Branca, principalmente de uma ala ligada ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. A expectativa é de que ações oficiais por parte do governo Trump tenham como objetivo questionar a validade das eleições, dar apoio para o clã Bolsonaro e minar qualquer política pública por parte de Lula, como no caso das tarifas.

A decisão de Washington de enviar um embaixador para Brasília, depois de mais de um ano e meio sem representantes, é vista como parte dessa ofensiva. O fato de o nome escolhido ser um aliado de Rubio também desperta a suspeita de que não se trate apenas de um diplomata – o que de fato não é. Mas de uma operação da extrema direita americana, com a incumbência de agir contra o governo brasileiro, organizar a oposição e criar instabilidade.

Não por acaso, o Brasil deve aguardar até o final do processo eleitoral para chancelar ou não a vinda do representante.

Uma segunda ofensiva ocorre “por procuração”. Ou seja, instrumentalizando atores da extrema direita da América Latina para criar instabilidade política no Brasil, tensão diplomática e um sentimento de incerteza. Esse papel tem sido assumido principalmente por Javier Milei, que viajou até o Brasil para apoiar Flávio Bolsonaro e abrir espaços de tensão com Lula. Ele, porém, não é o único. Na região, os presidentes do Paraguai, Chile e Colômbia também vêm sendo sondados para assumir esse papel.

Uma terceira via de ingerência seria por meio do que o governo chama de “operação híbrida”: o uso das plataformas digitais para ampliar as dúvidas sobre o processo eleitoral no Brasil e fazer avançar suspeitas contra as instituições nacionais na condução dos votos e das urnas.

Nesta semana, a realização de um encontro no consulado dos EUA em São Paulo com influenciadores conservadores para tratar de “liberdade de expressão” fez parte dessa estratégia.

Para Brasília, a condução de um esquema sofisticado, amplamente financiado e com o apoio de parte de movimentos políticos domésticos e regionais se transformou na maior ameaça contra a democracia brasileira em décadas.

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