Nos Estados Unidos, na última eleição presidencial os estados agrícolas do meio oeste deram ao presidente Trump uma esmagadora vitória com quase 30 pontos percentuais. Só para comparar, em termos nacionais ele obteve apenas 1,5% de frente.
São majoritariamente republicanos e esses, na escala nacional dão aprovação de 60% a política econômica de Trump, enquanto somados todos os outros espectros da sociedade americana, hoje somam 71% de desaprovação.
O mais impressionante é que os eleitores rurais já não se comportam como os demais republicanos. Eles estão quase tão pessimistas quanto a população em geral: apenas 32% aprovam a gestão econômica de Trump, enquanto 68% desaprovam. Isso apesar dos milhões de dólares em ajuda emergencial, mas que não evitou um aumento de 46% nas falências em 2025, ainda sem os efeitos maléficos da guerra com o Irã em 2026.
Existe um paradoxo semelhante e silencioso atravessando a política brasileira.
Nos últimos anos, um governo historicamente identificado com a esquerda ampliou sucessivamente os recursos do Plano Safra, fortaleceu instrumentos privados de financiamento, expandiu garantias de crédito, acelerou a abertura de mercados internacionais e ajudou a criar condições para que o agronegócio brasileiro continuasse registrando recordes de produção, exportação e geração de divisas.
Ao mesmo tempo, grande parte dos produtores rurais mantém uma postura de profunda resistência política ao próprio governo.
À primeira vista, a situação parece contraditória.
Se interesses econômicos fossem suficientes para moldar preferências políticas, seria razoável esperar uma aproximação entre ambos. Afinal, poucas atividades econômicas receberam tanta atenção da política pública nos últimos 20 anos quanto o agronegócio.
Mas o Brasil contemporâneo tal qual os Estados Unidos estão mostrando exatamente o contrário. E talvez esse seja um dos fenômenos políticos mais reveladores de nosso tempo.
Durante décadas, cientistas políticos, economistas e formuladores de políticas públicas trabalharam com uma premissa relativamente simples: grupos sociais tenderiam a apoiar governos que favorecessem seus interesses econômicos.
Empresários apoiariam governos pró-negócios. Trabalhadores apoiariam governos que ampliassem renda e emprego. Produtores rurais apoiariam governos que fortalecessem a atividade agropecuária.
A realidade, porém, tornou-se mais complexa.
O agronegócio responde hoje por cerca de um quarto da economia brasileira, quase metade das exportações e uma parcela crescente da riqueza gerada em centenas de municípios espalhados pelo interior do país.
Nos últimos anos, os volumes de crédito rural alcançaram patamares históricos. Novos instrumentos privados de financiamento consolidaram-se.
A diplomacia agrícola brasileira abriu dezenas de mercados para carnes, frutas, café, algodão, grãos e produtos processados. O país ampliou sua presença internacional justamente num momento de crescente fragmentação geopolítica do comércio global.
Os resultados econômicos são visíveis.
O setor continua sendo o principal responsável pelo saldo comercial brasileiro, pela entrada de divisas e por uma parte relevante da estabilidade macroeconômica do país, apesar da crise atual envolvendo altíssimos juros e a crise derivada do equilíbrio dos estoques mundiais e das guerras em curso.
Ainda assim, isso não se converte em apoio político. Por quê?
A resposta mais fácil seria atribuir tudo à polarização ideológica. Mas essa explicação é insuficiente. O que está em jogo não é apenas política agrícola. É confiança.
Ao longo dos últimos vinte anos, o agronegócio brasileiro construiu algo muito maior que um setor econômico. Construiu uma identidade.
Uma identidade associada ao empreendedorismo, à inovação tecnológica, à produtividade, à meritocracia, à propriedade privada e à inserção global.
Em muitas regiões do interior, o agro deixou de ser apenas uma atividade econômica. Tornou-se uma visão de mundo.
Nesse ambiente, as decisões políticas passaram a ser influenciadas por fatores que vão muito além do crédito rural, das taxas de juros ou da abertura de mercados.
Questões relacionadas à segurança jurídica, ao direito de propriedade, à legislação ambiental, às demarcações de terras, aos costumes, à religião e ao papel do Estado passaram a ocupar espaço tão ou mais importante do que os próprios resultados econômicos.
A consequência é que benefícios econômicos deixaram de produzir automaticamente apoio político.
Mas existe um segundo paradoxo, menos discutido.
Se parte do agro desconfia do governo, parte das elites políticas, financeiras (“Faria Lima”) e intelectuais brasileiras também parece desconfiar do agro.
Ainda persiste em determinados segmentos urbanos uma visão que associa o setor a estereótipos construídos décadas atrás, ignorando sua profunda transformação tecnológica, empresarial e ambiental.
Ignora-se frequentemente que o Brasil abriga alguns dos sistemas agrícolas mais eficientes do mundo. Ignora-se o papel da pesquisa tropical, da inovação genética, da agricultura de precisão e da integração crescente entre produção e sustentabilidade.
O resultado é uma espécie de incompreensão mútua. De um lado, produtores que frequentemente enxergam ameaças mesmo quando recebem apoio concreto.
Do outro, setores políticos que frequentemente enxergam privilégios onde existem ganhos reais de competitividade.
Ambos reforçam suas próprias narrativas. Ambos alimentam suas próprias desconfianças. Ambos aprofundam a distância.
Talvez o aspecto mais interessante desse fenômeno seja o que ele revela sobre a transformação da política contemporânea.
Durante boa parte do século XX, resultados econômicos eram capazes de construir legitimidade política. Hoje já não são.
Governos podem expandir crédito, criar programas, financiar investimentos, abrir mercados e estimular crescimento econômico sem necessariamente conquistar confiança. Porque confiança e desempenho econômico deixaram de ser a mesma coisa.
A confiança passou a depender de algo mais difícil de construir: previsibilidade, coerência, reconhecimento e pertencimento.
E é justamente aí que surge uma reflexão mais ampla.
Enquanto o Brasil permanece preso a disputas internas entre Estado e setor produtivo, o mundo está se reorganizando rapidamente.
Os Estados Unidos subsidiam sua indústria e protegem sua agricultura, apesar da crise atual. A União Europeia combina apoio produtivo com exigências ambientais crescentes.
A China integra segurança alimentar, política industrial, infraestrutura e geopolítica em uma estratégia nacional de longo prazo. A Índia segue caminho semelhante.
As grandes potências compreenderam que seus setores estratégicos não podem ser tratados como adversários políticos permanentes. Eles precisam ser incorporados a projetos nacionais.
O Brasil, por sua vez, continua oscilando entre a cooperação econômica e a desconfiança política.
Essa talvez seja a verdadeira questão.
Não se trata de saber por que um governo de esquerda não conquista o apoio do agronegócio.
Nem de perguntar por que parte do agronegócio rejeita um governo que amplia crédito e abre mercados. Na crise tanto o governo de direita de Trump quanto o de esquerda de Lula estão recebendo o mesmo tratamento.
A pergunta mais relevante é outra.
Como um país que depende tanto de sua capacidade de produzir alimentos, energia, fibras e soluções ambientais ainda não conseguiu construir uma visão compartilhada sobre um de seus maiores ativos estratégicos?
Porque o maior risco para o Brasil não é a falta de crédito, de mercados ou de tecnologia. É a sua incapacidade de transformar suas vantagens econômicas em consensos nacionais mínimos.
Num mundo cada vez mais marcado pela competição geopolítica, pela disputa por recursos naturais, pela segurança alimentar e pelas novas exigências ambientais, países que conseguem alinhar Estado, sociedade e setores estratégicos ampliam sua influência.
Os que permanecem presos à polarização desperdiçam oportunidades, e é isso que tristemente assistimos minuto a minuto no Brasil.
O agronegócio brasileiro tanto quanto o americano continua produzindo riqueza em escala global.
A dúvida é se o Brasil conseguirá produzir, na mesma escala, algo ainda mais valioso: confiança. O Estados Unidos está perdendo essa em escala global, não seria essa nossa maior oportunidade?
Precisamos começar aqui dentro.


