Mais da metade dos brasileiros pertence a um grupo que ganhou renda, ampliou expectativas e aprendeu a projetar um futuro melhor, mas viu parte desse otimismo desaparecer ao longo da última década. Para o pesquisador Renato Meirelles, essa trajetória ajuda a explicar por que a classe C se tornou decisiva para compreender não apenas o consumo e o mercado de trabalho, mas também o atual distanciamento entre eleitores e a política.
Em entrevista ao jornal O Globo, Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva, analisou as transformações desse segmento, tema de seu novo livro, “Brasil da maioria: 25 anos de classe C”, publicado pela Record. Segundo ele, essa parcela representa 53% da população brasileira, tem renda média de R$ 3,5 mil e funciona como uma espécie de “centro de gravidade” do país.
O fim da década de otimismo
Para Meirelles, definir a classe C apenas pela renda é insuficiente. O grupo, segundo ele, foi formado em meio a um período de expansão do emprego formal, baixos índices de desemprego e aumento real do salário mínimo, além dos efeitos indiretos de políticas de transferência de renda sobre a economia.
“Mais importante que isso é que a classe C representa uma parcela que tinha aprendido a sonhar, mas bateu a cara no muro”, afirmou.
O pesquisador situa em 2013 o fim do período que chama de “década de otimismo”. Depois de anos de melhora das condições econômicas, a desaceleração passou a ser percebida como uma interrupção de uma trajetória que parecia contínua.
“Foi prometido à classe C um processo contínuo de melhora de vida, e ninguém achava que precisaria diminuir a velocidade”, disse. Segundo ele, quando a economia perdeu força, aumentou a percepção de que o governo não conseguia mais atender às expectativas que havia ajudado a criar.
Na avaliação de Meirelles, esse processo contribuiu para ampliar a distância entre governantes e governados e alimentar um sentimento antissistema. Embora reconhecesse a importância das oportunidades abertas por políticas públicas, parte desse eleitorado atribuía principalmente ao próprio esforço as conquistas obtidas.
“Quem acorda cedo para trabalhar é ele, quem conseguiu ser o primeiro universitário da família foi ele, mesmo sabendo que o governo gerou oportunidades”, explicou.
Lula e Flávio diante da classe C
Essa frustração, segundo Meirelles, permanece importante para entender o comportamento eleitoral. Para ele, a decisão de voto desse segmento passa por uma questão essencialmente pragmática: saber se vale a pena substituir aquilo que já conhece por uma alternativa incerta.
O pesquisador avalia que os principais polos políticos ainda não conseguiram apresentar uma resposta capaz de mobilizar esse eleitorado em torno de uma perspectiva de futuro.
“Lula só oferece uma manutenção, e a família Bolsonaro oferece a aglutinação do ressentimento. Ninguém na classe C enxerga Lula ou Flávio como passaporte para um futuro melhor. O problema é de oferta mesmo”, afirmou.
Na leitura de Meirelles, a falta de confiança não significa que esse eleitor tenha desistido da política. “Eles estão dizendo que confiam mais em si mesmos ou em Deus, mas gostariam de confiar mais na política.”
Para recuperar essa conexão, ele defende uma aproximação maior entre poder público e população. Segundo o pesquisador, levantamentos de opinião indicam a necessidade de uma “escuta radical” dos cidadãos, inclusive permitindo que participem mais diretamente da avaliação dos serviços públicos.
“O cidadão não quer saber de Estado grande ou pequeno; quer um Estado que funcione”, resumiu.
Trabalho mudou, emprego também
Uma das transformações centrais identificadas pelo pesquisador está na relação dos brasileiros com o trabalho e, principalmente, com o próprio tempo. Para Meirelles, as mudanças tecnológicas ampliaram as possibilidades de atuação profissional e reduziram barreiras para quem deseja trabalhar por conta própria.
“O tempo passou a ser um grande ativo econômico. O que vale dinheiro é o tempo”, afirmou.
Nesse cenário, ele considera que o PT ainda enfrenta dificuldades para compreender uma mudança estrutural na classe C. “O PT ainda não entendeu que trabalho não é mais sinônimo de emprego. Lula não consegue se conectar com a classe C que ele mesmo criou.”
Meirelles reconhece, porém, que propostas ligadas ao fim da escala 6×1 e à isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil dialogam com demandas populares. Para ele, a discussão sobre a jornada de trabalho tem inclusive importância simbólica por recolocar o PT em um campo historicamente associado ao partido.
A ressalva é que essas iniciativas não alcançariam integralmente quem deseja empreender ou atuar como autônomo. Na comparação com o Brasil de 2002, quando Lula venceu pela primeira vez uma eleição presidencial, Meirelles aponta a tecnologia e a valorização do tempo como diferenças fundamentais.
Falta uma promessa de futuro
Ao analisar as dificuldades do governo para transformar intenções de voto em índices mais elevados de aprovação, Meirelles destaca o peso das expectativas criadas em torno do retorno de Lula à Presidência.
“Lula prometeu picanha e cerveja. A aprovação sempre é de acordo com a expectativa, e a expectativa era de que se voltasse ao Lula que entregou o governo em 2010 com mais de 80% de aprovação”, afirmou.
Segundo ele, esse cenário não se concretizou por fatores econômicos e políticos. A polarização, em sua avaliação, também dificulta a construção de diálogos mais amplos. Para o pesquisador, falta ainda ao presidente apresentar uma perspectiva adequada às novas aspirações da classe C.
“Lula ainda não foi capaz de oferecer o novo sonho, que é o de ser dono do próprio tempo”, declarou.
Meirelles também vê limitações na oposição. Na avaliação dele, o campo adversário ao governo consegue explorar insatisfações, mas ainda não apresentou uma proposta clara de futuro. O pesquisador compara o momento a eleições anteriores para argumentar que o eleitorado tende a rejeitar mudanças quando não identifica uma alternativa que considere suficientemente segura.
Para ele, essa ausência de uma nova perspectiva ajuda a explicar por que, mais de uma década depois das manifestações de 2013, a reconexão entre política e classe C continua incompleta.


