A velocidade com que a inteligência artificial (IA) avança pelo ambiente corporativo provocou um fenômeno inédito na história da tecnologia: o fim dos hiatos temporais de adoção entre diferentes mercados. Em transformações anteriores, os Estados Unidos e a Europa lideravam a implementação com anos de vantagem, restando à América Latina o papel de seguidora. Com a IA genérica e os modelos de código aberto (Open Source), o Brasil salta diretamente para a primeira onda de inovação, competindo em tempo real e de igual para igual com as principais potências globais.
No epicentro dessa mudança, as lideranças de tecnologia enfrentam o dilema entre os ecossistemas proprietários e as soluções abertas e duradouras. De acordo com Matt Hicks, CEO global da Red Hat, empresa da IBM, o grande desafio para os executivos do C-level não é apenas escolher o modelo de IA mais moderno da semana, mas sim garantir a soberania sobre a sua capacidade de pensar sem se tornar refém de um único fornecedor.
Forbes Brasil – Como você avalia o potencial e a performance do mercado brasileiro de tecnologia na atual era da inteligência artificial?
Matt Hicks – O Brasil é um mercado enorme e maduro para nós na América Latina. É repleto de oportunidades e isso o torna emocionante, porque é possível aplicar tudo o que discutimos no setor. A mudança que observei e que considero ainda mais empolgante é que, nos dias do Linux, os Estados Unidos lideravam, a Europa vinha em segundo, e a América Latina e a região Ásia-Pacífico seguiam depois. Com a inteligência artificial, descobri que todos estão avançando ao mesmo tempo. Não existe mais um pioneirismo exclusivo dos EUA. O Brasil possui o alcance e a força de um mercado maduro em um ambiente de crescimento, estando na primeira onda dessa tecnologia. Para citar apenas dois exemplos, que inclusive vimos no Red Hat Summit, temos projetos excelentes com a Usiminas e a Prodeb (Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia), que estão aplicando IA de maneira eficiente e com retorno visível.
Diante de tantos novos modelos e fornecedores de linguagem (LLMs), qual é o maior desafio atual para os executivos do C-Level?
Existem hoje dois campos muito polarizados no mercado. De um lado, estão os grandes players proprietários que exigem total confiança em suas soluções fechadas para cada escolha. Do outro lado, está o mundo aberto, o Open Source. O maior desafio para as empresas é identificar quais escolhas as colocará em um campo tecnológico sustentável e duradouro, em vez de tomar uma decisão que as deixe presas e trancadas em um ecossistema específico. A IA não é uma tecnologia mágica, ela é uma capacidade de pensar de forma amplificada.
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O que deve ser dito para as empresas que ainda tratam a inteligência artificial com hesitação, considerando-a algo que pode ser ignorado no momento?
Elas precisam agir. Faço uma analogia com o futebol: o objetivo do jogo não muda, mas se os jogadores foressem trocados por robôs, a forma de recrutar, treinar e gerenciar a organização precisaria ser completamente diferente. Não acho que a experiência acumulada nos últimos vinte anos seja suficiente para vencer na IA, porque os fundamentos de como o jogo é jogado mudaram drasticamente. O que vai ditar o ritmo será a competição de mercado. Aqueles que inovam bem recebem recompensas de investidores e financiamentos; os que optam por não fazer nada assumem o risco iminente de serem punidos pelo mercado e pelos investidores, porque a transformação já é esperada de todos.
Em um contexto de alta complexidade tecnológica, como equilibrar a necessidade de construir relações de confiança com a velocidade de escala exigida pelas vendas?
Existe um paradoxo. Nas vendas e nos negócios de software, a confiança é um elemento crítico e durouro, algo que a IA não substitui porque ela é puramente transacional. No Open Source, por exemplo, os projetos se baseiam em relações humanas de confiança e na viabilidade das plataformas. Diante de milhões de códigos escritos por máquinas, o cliente precisa confiar em quem está gerenciando e garantindo o progresso do projeto da forma correta. A intimidade com o cliente neste momento é mais importante do que nunca. É preciso ouvir profundamente os desafios deles e propor soluções robustas de infraestrutura, seja para a eficiência de um grande banco ou para um governo que precisa otimizar serviços públicos essenciais aos cidadãos de forma estável.
Considerando o impacto da IA nas estruturas corporativas, qual é o caminho mais estratégico para os recursos humanos: contratar especialistas ou investir em re-skilling?
Trata-se de uma corrida de inovação dupla. Há um grupo muito pequeno de engenheiros que dominam o conhecimento técnico profundo do domínio de IA, mas a grande maioria das organizações passará por uma mudança cultural. De um lado, profissionais de negócios não técnicos usarão as ferramentas de IA para programar e extrair respostas sobre o mercado que já conhecem bem. De outro, engenheiros usarão a tecnologia para compreender os negócios de forma acelerada. Tanto a capacidade de engenharia para construir sistemas agênticos quanto a curiosidade de negócios são igualmente valiosas. O desafio das lideranças é desmistificar essas ferramentas e ensinar as equipes a utilizá-las para amplificar o que já fazem, garantindo a competitividade futura da empresa.
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